Priscila de Moraes nos conduz a um território que julgamos conhecer: a escola. Mas seu olhar não se detém apenas em currículos, metodologias ou resultados. Ele alcança aquilo que raramente aparece nos planejamentos e que, muitas vezes, educa de forma mais profunda, os gestos, os silêncios, as escolhas, as omissões, a coragem de acolher, ou a decisão de não fazê-lo.
Em suas crônicas, a escola emerge como espaço profundamente humano, no qual adultos ensinam mesmo quando não estão ensinando. E as crianças observam. Percebem quem é ouvido, quem é protegido, quem pode pertencer e aquilo que uma instituição decide naturalizar ou transformar.
É dessa tensão que nasce a força deste livro. Estas páginas não acusam a escola, mesmo porque não é seu propósito, mas interrogam-na. E o ato de interrogá-la talvez seja uma das formas mais exigentes de amá-la. Assim, sem poupar perspicácia e dotada de uma inerente sensibilidade literária e lucidez crítica, Priscila nos lembra que nenhuma instituição educa apenas pelo que afirma defender. Educa também pelo que tolera, pelo que interrompe, pelo que protege e pela cultura que constrói todos os dias.
Ao final, compreendemos que este livro nunca foi apenas sobre crianças.
É sobre nós; os adultos que elas observam enquanto aprendem a interpretar o mundo.
Porque, muito antes de compreenderem nossas teorias, elas já perceberam algo essencial, a ideia de quem somos quando acreditamos que ninguém está olhando.
Wagner Guedes
Editor e crítico literário
